Ganhei esse livro alguns natais atrás, comecei a ler 2 ou 3 vezes e parei. Até que comecei ele um mês atrás e li quase todos os dias algumas páginas dele.
Antes de ler essa quase autobiografia do Obama, eu li a da Michele Obama e talvez por isso criei expectativas erradas sobre o que eu esperava desse livro. A Michele escreveu a sua autobiografia em ordem cronológica, falando bastante da infância dela, do período da faculdade e quando ela está como primeira dama o “personagem” já está construído na sua cabeça.
Eu não sabia muito sobre o Barack antes dessa leitura, e esperei que ele começasse também falando da sua infância. Até que ele fala um pouco no primeiro ou segundo capítulo, mas aos poucos ele vai criando uma narrativa – que se parece muito com o meu jeito de contar histórias – mas não era o que eu esperava.
Como Barack construiu suas decisões
Ao invés de seguir o fio estritamente cronológico, Barack insere o tempo todo fragmentos de acontecimentos que formaram a opinião dele para tomar a decisão A ou B semanas, meses, décadas depois. Ele quer que entendamos, profundamente, porque ele tomou aquelas decisões e de onde vieram suas convicções voltando por exemplo em episódios de conversas com a mãe enquanto era criança durante uma explicação de como era importante para ele mudar ou aprovar uma lei.
Soft power, consumo e decepção
Eu, uma criança anos 90 cresci consumindo conteúdo e consequentemente o estilo de vida dos EUA através dos filmes e clipes musicais. Já ali na fase adulta comecei a me questionar sobre tudo que eu absorvera disso e o quanto eu tinha de opiniões reais sobre os EUA e quanto era apenas comida que engoli sem julgar a procedência.
A verdade é que eu nunca fui daqueles que queria morar nos EUA, mas eu admirava muito e achava que eles realmente eram uma potência imbatível, incorruptível e exemplo a ser seguido em quase tudo. Até que, não sei exatamente em qual momento, a partir de leituras de outros pontos de vista a coisa mudou pra mim. Me lembro de quando li A Grande Saída do Angus Deaton, prêmio Nobel de economia 2015, o quanto algumas “ajudas humanitárias” mantidas ou quase sempre encabeçadas pelos EUA mantém alguns países em guerra civil e em cenários realmente tristes. Passei até pela fase do ranço, de achar que tudo que vinha de lá era forçado e ruim até que cheguei no momento atual onde acredito que consigo observar melhor os pontos fortes e fracos sem ódio ou amor.
Durante a leitura em alguns momentos me questionei: isso é bonito e verdadeiro ou uma tentativa de soft power? Mas até que várias dúvidas se dissiparam com o decorrer do livro.
Autocrítica, limites do poder e pragmatismo político
Conforme o livro vai se aprofundando, passando sobre as dificuldades e curiosidades sobre ser presidente, Barack sempre faz um mea culpa e apresenta aquelas opiniões mais democratas (esquerdistas talvez?) que fizeram ele ser admirado por povos discriminados nos mais diferentes locais do globo. Gosto também do fato de que até se tornar candidato a presidente pelo partido democrata ele passa por outros cargos públicos, muitas vezes se deparando com o problema que conhecemos bem de conciliação entre diferentes partidos/visões frentes para realizar algo politicamente.
Apesar de ter sido escrito mais de 5 anos atrás e contar fatos de mais de 15 anos atrás acho o livro MUITO atual. Não só por citar Donald Trump nos últimos capítulos do livro, não só pelos EUA estarem diariamente no noticiário de um ponto de vista negativo mais recentemente, mas principalmente pelo processo complicado, doloroso e talvez até injusto que ele descreve que foi necessário para conseguir ou não aprovar o que era o projeto dele de país.
O paralelo inevitável com o Brasil
No Brasil, apesar do regimento do Senado e da Câmara não ser idêntico ao dos EUA é impossível não ler esse livro e comparar – de certa forma até entender – o que acontece no Brasil governo após governo. Consigo ver claramente a bancada da direita e esquerda passando pelas disputas que ele descreve que aconteceram no Senado e na Câmara.
Inclusive o livro me forneceu argumentos para sustentar uma tese que eu criei antes do Bolsonaro ser eleito e que eu considero ter sido confirmada durante o governo dele: seria impossível o Bolsonaro ter um bom governo tanto por ter tido uma carreira política e partidária praticamente inexistente antes de ser candidato a eleição e também por nunca ter lutado por alguma causa de maneira profunda enquanto político, o que eu acredito que faria ele se conectar com outros políticos que tentavam aprovar leis. Essa ausência de atuação política fez com que ele criasse um governo com ministérios e secretarias gerenciadas por colegas, influencers e qualquer pessoa que ele fosse com a cara. Mas ser presidente é, definitivamente, saber escolher as pessoas certas para trabalhar no seu entorno, pessoas competentes que farão um bom trabalho e te ajudarão a tomar boas decisões embasadas nas áreas em questão, independente se você concorda com elas ou não.
Vale a leitura?
Se você se interessa por política e democracia considero um livro interessantíssimo para você adicionar a sua lista. Aqui o link pro livro na Amazon.